quinta-feira, 26 de março de 2026

CARTA ANO 1897- DE CAPOEIRAS( NOVA PRATA) PARA GIOVANNI BATTISTA SCALABRINI- UMA NARRATIVA DA DESGRAÇA QUE SE ABATEU SOBRE A FAMÍLIA


16.setembre 1897
                                                       

Excelência Reverendíssima

Don Giovanni Battista Scalabrini

Piacenza-Itália

 

   Eis aos pés de Vossa Excelência o último de seus missionários, abatido e alvo primeiramente  da desventura e depois maltratado e caluniado pelo Padre Pietro Colbacchini. Excelência, um golpe adverso  lançou na miséria minha pobre família e, encontrando-se esta nessas tristes condições, em 4 de abril do corrente ano, partiram de Gênova meus velhos pais em companhia de um dos meus irmãos, que tem esposa e sete filhos, sendo a filha mais velha com apenas catorze anos. Embarcaram com passagem  gratuita , tendo para a viagem apenas duzentas liras, doadas pelo muito Reverendíssimo Don Antonio Cogo,  Arcebispo  de Mason, Província de Vicenza. Quando chegaram ao Rio de Janeiro, ao invés  de serem embarcados para o Rio Grande do Sul, conforme desejavam, foram mandados por aquelas autoridades para a província de Minas Gerais, onde tiveram que permanecer trabalhando sob um fazendeiro que mal  lhes  pagava o necessário para viver.

Escreveram-me, narrando sua miséria e escravidão, pedindo-me ao mesmo tempo ajuda e socorro pelo amor de Deus. Além disso, nos arredores grassava a febre amarela e onde estavam havia tantos insetos que não os deixavam em paz nem de dia nem de noite. Estavam tão atormentados  pelos insetos que seus corpos se tornaram  chagados  ..Testemunha ocular de como os encontrei  é  o padre Marco  Simoni. Sabendo disso, escrevi ao Padre Pietro, que estava  em outra região (Nova Bassano), mostrando-lhe as cartas que recebi  e solicitei  licença para  ir  buscá-los. Ele respondeu que, de sua parte, jamais permitiria que eu fosse buscá-los onde estavam , contudo, queria que eu fosse até ele .Fui.  Fez-me uma carta para levar à diretoria da Colônia. Peguei a carta e  sem dizer nada  voltei e encorajado pelo  pelo Padre Serraglia e pelo vigário de Alfredo Chaves Don Matteo Pasquali, parti no dia 2 de julho e voltei em 8 de setembro. Esclareço também ,  que se eu tivesse demorado mais uns vinte dias, eles não poderiam mais partir, pois acabaria  o tempo concedido pelo governo daquela Província aos colonos para escolherem novo destino  , após o qual os mesmos  não poderiam mais optar ir para outra localidade. Antes de partir de Capoeiras, consegui emprestados 400 mil réis, equivalentes a 320 liras italianas, e, como isso não bastou para as despesas de viagem, outros 500 mil réis, equivalentes a 400 liras italianas, enviados pelos meus companheiros de São Paulo-Ipiranga. Assim, pude transportar minha família até Porto Alegre. Meus pais, o pai com oitenta anos e a mãe com setenta, deixei-os em São João de  Montenegro, no dia 2 de setembro, em ótima saúde, porém  não pude levá-los comigo  para a Colônia devido ao mau tempo e às estradas intransitáveis.  Eu parti a pé, caminhando por três dias sob uma chuva torrencial, com meu irmão e  cinco dos seus   filhos.

Digo a verdade, Excelência, experimentei as penas do purgatório, para não dizer as do inferno. Paciência, cheguei não em boa saúde, mas pelo menos ainda vivo. Fiz isso por falta de meios para viver. Esses excessos abalaram todo o meu organismo e, tendo tido artrite em Piacenza, agora, após essas provações, sinto dores nos ossos, ao ponto de não conseguir viajar. Digo-lhe isso porque, antes de partir de São Paulo-Ipiranga, meus companheiros de lá me pediram que voltasse para eles, dizendo-me que fariam a Vossa Excelência o pedido relativo. Mas, por ora  mesmo que  me impusesse em votos de santa obediência para ir, não poderia fazê-lo por razões de saúde. Ao voltar, o Padre Pietro escreveu-me uma carta injuriosa e caluniosa, avisando-me que não me queria mais sob sua autoridade. Disse que havia escrito a Vossa Excelência e ao Monsenhor Bispo de Porto Alegre e que eu aguardasse a decisão  dos meus superiores  decidirem  qual destino me  dariam.  . Sou acusado pelo Padre Colbacchini de dois enormes delitos: o primeiro, que, sem sua licença explícita, parti para libertar da escravidão e da miséria meus velhos pais. O segundo, porque sou bem-vindo pelos colonos e preferido a ele. Que culpa tenho eu se minha família estava e está na mais absoluta miséria? Que culpa tenho eu , se os colonos me querem bem e me preferem sem qualquer mérito   meu , a ele? Estas são minhas faltas. Ele ainda acrescenta outras inventadas  e são testemunhas três vigários destas redondezas: Don Giovanni Fronquetti, de Conde D”Eu Don Giovanni Menegotto, de Bento Gonçalves; Don Matteo Pasquali, de Alfredo Chaves; sem contar as milhares de famílias que estão dispostas a testemunhar a meu favor. Este bendito homem, o Padre Colbacchini, não sei realmente como trata-lo  . Sempre me calunia e diz que falo mal dele, o que não é verdade. Vai  até os  colonos e diz que a culpa é minha por tratar familiarmente com eles. Foi também ameaçado enquanto eu estava em Porto Alegre, e ele diz que a culpa é minha. Escreveu ao   bispo,( de Porto Alegre)  acusando-me de não pagar as taxas prescritas. Diz que não sei a  moral, e devo fazer os exames novamente para certificá-lo que posso exercer meu ministério. Confrades dessa qualidade não me agradam. Quando o Padre Pietro foi apresentado aos colonos, pela primeira vez, apresentou-se com  um ar de Grande Sultão dos Tártaros, e depois quer que falem bem dele.

            O Monsenhor Bispo de Porto Alegre me recebeu com caridade e, depois de ouvir não a mim , mas aqueles que me acompanharam, como estavam as coisas, mandou-me de volta ao meu posto, impondo ao Padre Pietro que me deixasse em paz, dizendo: "Você falta com a caridade com seus subordinados." Estas são coisas que não me agradam. Se este bendito homem faltasse alguma vez com a caridade  somente , mas falta com a educação e a civilidade. Tenho quarenta e seis anos, aos quatorze deixei a escola por falta de meios e fui ganhar o pão na casa dos outros. Vivi com todo tipo de pessoas, mas nunca encontrei original semelhante. Disse a alguns colonos:”- o Padre Antonio Seganfreddo eu o quero  fora do território de Alfredo Chaves, e será  expulso da Congregação, e chamado de volta à Itália e nunca mais porá  os pés na América. Se acaso   cometi delitos, meus superiores terão razão para chamar-me  de volta para a Itália , caso contrário, não poderão fazê-lo. Mesmo porque   a decisão deve  partir  de mim antes mesmo de fazer os  votos. Digo- vos   estas palavras: "Não tenho dificuldade em fazer os votos perpétuos, mas, como viajei tanto ao longo da minha vida, peço para ser mandado ao território de Alfredo Chaves e lá terminar meus dias, sem ser enviado para outro lugar. Tudo foi premeditado  agora para satisfazer um insatisfeito, acredito que meus superiores  não farão isso. Eu, porém, mereço todos os desprezos e mereço ser colocado no último lugar porque não sou bom para nada, servo inútil, um pobre miserável, carente de todas as qualidades e virtudes necessárias para exercer o sublime ofício de missionário. De fato, o Padre Pietro diz que não tenho vocação e, por isso, diz que  ficarei sem as minhas dificuldades   e sem o meu ministério., pois esse é infrutífero.. E eu francamente respondi: o bem não faz barulho e o barulho não é o bem. O bem se faz com a ajuda de Deus, quando Ele quer e da forma que Ele gosta. Excelência, diante do julgamento do Padre Pietro os meus superiores devem me expulsar. Expulse-me, Excelência, eu mereço. Terei merecido por ter usado de mau comportamento com meu superior local e por ter faltado com todas aquelas gentilezas e cuidados que o Padre Pietro merece. Mas digo que, não sou malicioso , nunca lhe faltei      com o devido respeito. Deus é minha testemunha. Suporto os desprezos e as injúrias em santa paz, mas não posso suportar as calúnias, porque ajudei minha pobre família e devo continuar a ajudá-la pelo menos até o final da primeira colheita. Anotei  tudo o que gastei com eles e o que gastarei com a ajuda nos próximos meses . Quando estiverem acomodados na terra, em breve estarão em condições de restituir tudo o que receberam de mim. Terei feito mal, mas em extremis omnia bona fiunt communia.

Perdoe-me, Excelência, abençoe-me e recomende-me a Deus porque realmente preciso.

Respeitosamente, beijo o sagrado anel implorando sua bênção pastoral.

Serei de Vossa Excelência um humilde filho.

Capoeiras, 16 de novembro de 1897.

Padre Antonio Seganfreddo.

CONSIDERAÇÕES:

 

extremis omnia bona fiunt communia= em extrema necessidade


  • A Crise Familiar: A família de Seganfreddo (pais idosos, irmão, cunhada e 7 sobrinhos) emigrou de Mason Vicentino. VI.Partindo do porto de Gênova em abril com apenas 200 liras, e foram parar em outro Estado do Brasil.
  • O   Destino: Ao invés do Rio Grande do Sul, foram enviados para Minas Gerais, onde viveram em condições análogas à escravidão, sofrendo com a  ameaça da febre amarela e insetos.que os deixaram  cheios de feridas.
  • O Resgate: Contra a vontade do Padre Pietro Colbacchini (seu superior local), Seganfreddo viajou em julho para buscá-los, financiando a viagem com empréstimos de colegas de São Paulo.
  • A Chegada ao RS: Ele conseguiu trazer a família para Porto Alegre e depois para São João de Montenegro (atual Montenegro),deixou ali os velhos pais , a cunhada Giovanna Nicoli e os dois menores  e partiu com o irmão e cinco dos filhos até Capoeira.Caminharam por tres dias e chovia muito.  Segundo a carta eles foram de Monte Negro até Capoeiras( Nova Prata)  a pé sob chuva torrencial.
  • O Conflito: O Padre Colbacchini o acusou de desobediência e falta de preparo moral, pedindo sua expulsão, enquanto Seganfreddo se defendia alegando caridade cristã com seus pais.Porém o bispo de Porto Alegre foi complacente para com ele, escrevendo ao padre Pietro que tivesse caridade para com seus subordinados.
Personagens Citados
  • Destinatário: Dom Giovanni Battista Scalabrini (Piacenza).
  • Autor: Padre Antonio Seganfreddo (46 anos na época).
  • Antagonista: Padre Pietro Colbacchini (pioneiro das missões scalabrinianas no Brasil).
  • Testemunhas: Padre Mario Simoni, Padre Serraglia, Dom Matteo Pasquali (Alfredo Chaves/Veranópolis), Don Giovanni Fronquetti (Conde D’Eu/Garibaldi) e Don Giovanni Menegotto (Bento Gonçalves
  • Essa carta enviada em setembro, quando o padre Antonio Seganfreddo retornou de Minas Gerais trazendo a família a qual desembarcando no porto de Santos  ao invés de serem enviados ao Rio Grande  do Sul onde já estavam Lúcia, Giuseppe e padre Antonio foram enviados a trabalhar em uma lavoura de café em Conquista, Minas Gerais, Triângulo Mineiro.
  • Eles conseguiram comunicar-se com o padre Antonio enviando uma carta, que demorou para chegar pois tudo era lento. Conquista , muito longe, em uma fazenda de café, ficaram lá trabalhando.
  • A nonna Catterina contava que dormiam todos juntos em um galpão, supomos fosse uma senzala, onde os escravos recém libertos ficavam normalmente.
  • O trageto para chegar até Conquista era esse: com vapores costeiros menores que saiam do Lago Guaiba e iam até São Paulo.Provavelmente foi verificar para onde teriam ido, foi até a Hospedaria Horta Barbosa em Juiz de Fora, Minas, de trem saindo do Rio de Janeiro, e depois de Juiz de Fora onde estavam os registros na Hospedaria Horta Barbosa foi até Conquista, quiçá de trem até uma parte e outra até chegar a fazenda com outro meio. Por isso demorou tanto a voltar, trazendo pai, mãe, irmão, cunhada e 7 filhos, dentre os quais minha nonna Catterina com 14 anos.
  • Tradutora: Ana Maria Seganfreddo
  • Fontes de pesquisa:
  • Arquivo da Congregação de São Carlos em Roma
  • livro Raízes de um povo-de Redovino Rizzardo
  • Web, Storia della Congregazione Scalabriniana

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