DO LIVRO DE FIDELIS DAL CIN BARBOSA- UMA HISTÓRIA VERDADEIRA DE UMAS FAMÍLIAS DE MORADORES DO TURVO
FOTO VERDADEIRA DE SATYRO FERNANDES , FILHO DE QUINZOTE-
Coloco essa foto aqui pois faz parte da área onde nosso antepassado padre Antonio Seganfreddo ia nestas fazendas daqueles que ele denominava "brasilieri" e ficava por quatro dias atendendo, batizando crianças, celebranco missas e casamentos, Ali ele conseguiu recursos para construir a igreja de Capoeiras, inaugurada em 1904 por dom João Battista Scalabrini.
16 – QUINZOTE Embora a pecuária representasse o esteio exclusivo da economia dos primitivos fazendeiros dos Campos de Cima da Serra, a agricultura teve sempre papel saliente em todas as fazendas, não para fins comerciais, mas para consumo doméstico. Como ainda não existia possibilidades para implantação da lavoura mecanizada, com adubação química, em toda a região dos campos gaúchos, as lavouras limitavam-se às de banhado e roças de mato. Além do quintal e do pomar, todas as fazendas dispunham de uma pequena roça de mato, fechada por cerca de rachão ou taipa de pedra. Com adubo orgânico proveniente do esterco bovino, cultivava-se feijão, batata doce, moranga, aipim e até trigo. Este era malhado e mangual ou a pata de cavalo, no terreiro, recamado com esterco de gado e cinza. Havia, ainda, em quase todas as fazendas a lavoura de banhado, fechada por valo profundo, destinada quase exclusivamente ao plantio do milho e batata doce, sendo pouco indicada para o feijão, em virtude da umidade do solo.
Entretanto, quase todos os fazendeiros dos Campos de Cima da Serra possuíam roça na região da serra. Serra do Pelotas, Serra das Antas, Serra do Carreiro, Serra do Forquilha... O fazendeiro requeria posse de certa área da mata e mandava demarcar. A posse na serram em geral, tinha dupla finalidade: a cultura agrícola e o invernamento do gado. Em abril, formava-se uma comissão de peões, que seguia para a serra conduzindo uma tropa de cerca 12 cargueiros, transportando mantimentos e roupas. Iam tocando tropas de gado, de cavalos, de porcos, que passavam o inverno na mata da serra, onde ficavam ao abrigo do frio e alimentando-se de pinhão, naquele tempo quando a floresta era um grosso pinhalão de araucárias sem fim. No final da temporada do pinhão, os suínos, fechados em encerra, estavam bem gordos, aptos para o abate. Carneava-se ali mesmo, para fabrico de banha, lingüiça, charque... Tudo era depois transportado para a fazenda e ali consumido durante o resto do ano. O gado, cavalos e mulas, por sua vez, findo o inverno, retornavam à fazenda gordos e reluzentes, prontos para o mercado, quando no campo, muitas vezes, morriam por falta de pastagens e pelo frio.
Na primavera, fazia-se a roça na serra. Construía-se um paiol, por vezes uma estrebaria, ao lado. Derrubava-se a mata e plantava-se o milho, não raro o feijão. O cereal crescia viçoso e abundante. Colhia-se, guardava-se no paiol e, aos poucos, ia sendo transportado em cargueiros para a fazenda. O produto da lavoura da serra destinava-se ao consumo doméstico. Representava fator importante para a economia do numeroso pessoal da fazenda, pois, naquele tempo, tanto o campo como o gado tinham pouco valor. A posse da serra era, muitas vezes, destinada mais tarde para algum peão que desejasse tornar-se autônomo. Após a abolição da escravatura, muitas famílias de cor iniciaram sua vida independente, livre, nessas posses de seus antigos senhores. Na atual cidade de Ipê, por exemplo, formou-se um povoado com tais famílias, dando origem à cidade, entre Vacaria e Antônio Padro. Na imensa posse de Francisco Felipe de Paula (Chico Felipe), surgiram as cidades São José do Ouro e de Cacique Doble, fundadas por imigrantes das velhas colônias italianas. Na posse de José Bueno de Oliveira, formaram-se as cidades de Sananduva e Ibiaçá. ** *
Joaquim Antônio Fernandes, mais conhecido pelo apelido de QUINZOTE, que residia no Turvo, no atual município de André da Rocha, tinha sua roça de serra precisamente no local onde surgiu a cidade de Veranópolis, que a princípio se chamou Roça Reiúna e, depois, Alfredo Chaves.
Filho de José Antônio Fernandes e Genoveva Luísa de Jesus, paulistas, Quinzote casou em 22-8-1852 com Maria Nunes da Silva, filha de José e Donaciana Borges Vieira Nunes, irmã de Bárbara Borges Vieira Pimentel, casada com João Mariano Pimentel, cuja família e fazenda de São João foram assaltadas pelos índios Coroados em 5-9-1851, orientados por um negro conhecido por João Grande. José Nunes da Silva, o sogro do Quinzote, dono da fazenda São José, no Turvo, com uma área de 110 milhões de metros quadrados, teve dez filhos, conhecidos pelo apelido de Chiquitus.
Dois deles tiveram morte trágica: José e Antônio. José Nunes da Silva Filho apaixonou-se por uma filha da família Fogaça, da vizinha fazenda de Sarandi, também conhecida por Fazenda Velha. O namoro não foi bem aceito e acabou em tragédia. José Nunes da Silva Filho foi assassinado e seu corpo foi encontrado oito dias depois no Poço Redondo do rio Turvo.
Para fugir da vingança, que naquele tempo era lei, a família Fogaça mudou-se para Cima da Serra, São Francisco de Paula, permutando sua fazenda com a de Ismael Nunes de Mesquita.
E foi assim que em São Francisco de Paula surgiu a grande e ilustre família Fogaça e em Lagoa Vermelha, a não menos numerosa e ilustre família Mesquita. Alguns membros da família Nunes da Silva casaram com descendentes da família Mesquita, como aconteceu com o abastado pecuarista Demétrio Nunes da Silva que se consorciou com Ilza Lourenço Mesquita. Antônio Nunes da Silva, por sua vez, por ocasião da partilha da herança, como filho mais novo da família, recebeu uma partilha que lhe pareceu pequena e injusta; por isso tratou de lutar a favor de seus direitos. Naquele tempo, o juiz decidia a partilha na própria casa dos herdeiros. Antônio Chiquitu era um gigante. Alto e gordo, pesava mais de cem quilos. Forte como um touro, derrubava um boi como se fosse um guaipeca. Irritado com a decisão do juiz, com aquela força monstruosa, desferiu violentíssimo murro sobre a mesa de mármore, que se partiu. A seguir, entrou a surrar o magistrado e seus acompanhantes, que não tiveram outra volta senão fugir correndo, extremamente humilhados.
A mesa depois o Chiquitu consertou com uma placa de prata, naquele tempo em que prata era moeda corrente. Tudo era de prata, desde os talheres até os arreios de montaria. Está visto que as coisas, aquela surra tremenda, aquele vexame, não iriam ficar impunes. Então, um dia, partindo da vila de Vacaria, saiu uma escolta de soldados, junto com o delegado de polícia, a fim de prender o valente Chiquitu.
A escolta, andando a cavalo, durante todo o dia, só chegou à Fazenda do Barreiro, onde moravam Antônio, altas horas da madrugada. Bateram na porta do rancho. Antônio levantou da cama; olhando por uma fresta, reconheceu os guardas armados. - Quem vai lá? – perguntou. - Gente amiga, Seu Antônio. - Que é que vocês querem? - Queremos falar com o senhor. - Está bem, quando clarear o dia, eu abrirei a porta. Antônio sentou-se à mesa, ao lado do lampião, fumando e tomando chimarrão, enquanto sua esposa, por sua ordem, continuava na cama. O rancho era de barro. Os guardas resolveram abrir um buraco na parede. Foram abrindo com a faca, devagar, sem ruído. Quando, pela fresta, viram o Chiquitu à luz do lampião, sentado de costas para eles, roncou o fuzil... Foi assim que no dia 18 de fevereiro de 1883, veio a perecer o mais forte gaúcho dos campos de Lagoa Vermelha, contando apenas 35 anos de idade. ** * Morte igualmente trágica sofreu o Quinzote, degolado pelos maragatos durante a revolução federalista de 1893, que o prenderam a caminho da sua Roça Reiúna, juntamente com o filho Sátiro. Quinzote, que escapou de morrer nas garras de uma fera, pereceu às mãos das feras humanas. Um dia, andando a cavalo em seu campo no Turvo, deu com uma onça que perseguia seu gado. Como se encontrava desarmado, resolveu laçar o felino. Bom laçador, não errou a armada. Presa, a onça investiu contra o laçador e seu cavalo. Este, dizem que por instinto de defesa, deitou-se ao solo, para evitar o tigre montasse a cavalo, e, montado, fugisse para longe do perigo.
Por sorte, dois cachorros da fazenda, que andavam por perto, vendo o risco que corria o seu patrão, lá se vão em sua defesa. Briga feia, que terminou no mato, logo que Quinzote desapresilhou o laço dos arreios.
Quando os revolucionários prenderam e degolaram o Quinzote e se preparavam para degolar o filho, este, o Sátiro, conseguiu desprender-se das amarras e deitar a correr, sendo atingido por um balaço na perna. Pois o Sátiro deu um grande homem, deu um capitão. Foi ele que introduziu em Lagoa Vermelha o gado Devon, trazendo-o da Fazenda Pedras Altas do Dr. Assis Brasil.
Foi, ainda, quem introduziu em Lagoa Vermelha o banheiro carrapaticida, sendo, a princípio, combatido por isso. Introduziu também as primeiras sementes de eucaliptos. Sátiro, escapando de morrer degolado pelos revolucionários, só veio a findar seus dias em 1948, com a idade avançada de 93 anos.
]Morreu em sua nova Fazenda de Santa Cecília, então município de Passo Fundo e hoje município de Tapejara. Deixou numerosa e ilustre descendência. Seu neto, o Dr. Ivo Rodrigues Fernandes, hoje residente em Porto Alegre, foi consultor jurídico do Banco Central e do Banco do Brasil em Brasília. Advogado, pecuarista e granjeiro, possui uma vasta e linda fazenda às margens da BR-285, no atual município de Ciríaco, entre Lagoa Vermelha e Passo Fundo. **
O Filho do Baby Doll – Fidélis Dalcin Barbosa
Escritor e padre em Lagoa Vermelha
Escreveu muitos livros referente a povoação da vasta região que abrangia toda Colônia Alfredo Chaves.
observações:
A Revolução Federalista (1893–1895) foi uma violenta guerra civil ocorrida no sul do Brasil, logo após a Proclamação da República. O conflito opôs duas facções políticas gaúchas com visões opostas sobre a organização do Estado e o governo de Júlio de Castilhos no Rio Grande do Sul.
Pica-paus ou Chimangos (Republicanos/Legalistas): Liderados por Júlio de Castilhos e apoiados pelo governo federal de Floriano Peixoto. Defendiam o presidencialismo, o positivismo e a centralização do poder. Usavam lenços brancos
- Cerco da Lapa: No Paraná, a resistência das tropas legalistas na cidade da Lapa (liderada pelo Coronel Gomes Carneiro) foi crucial para impedir o avanço dos maragatos em direção à capital da República, o Rio de Janeiro.
- Aliança com a Revolta da Armada: Os federalistas uniram forças com marinheiros rebelados da Segunda Revolta da Armada, que também se opunham ao governo autoritário de Floriano Peixoto
- Nó Maragato: Existe uma forte tradição cultural gaúcha em torno do "nó maragato" no lenço, embora o uso de diferentes nós tenha variado historicamente.

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